26.7.06

A FILOSOFIA CONCRETA SUCINTAMENTE EXPLICADA



Prólogo ao livro "Analise de Temas Sociais, vol I"


A criança desde logo é fácil observar, vive a realidade em que ela se concreciona. Não se distingue do ambiente no qual vive e capta confusamente. Com o decorrer do tempo, sua actividade diferenciadora é crescente, e grande é o esforço para conseguir distinguir, separar abstrair. Do mesmo modo, deve ter sido a evolução da inteligência do homem. Em seus primórdios, sua imersão no mundo, leva-o a confundir-se com o meio ambiente. Desenvolveu lentamente a sua capacidade abstracionista, e alcançou, afinal, esse período extraordinário de análise, que vai desde os gregos ate nossos dias. Estamos agora, depois de uma atomização especializadora constante, marchando para um novo período: o concrecionador. Neste, o homem irá reunir, não, porém, confusamente, o que distinguiu, o que analisou. Se difícil lhe foi realizar a análise, mais difícil ainda é agora concrecionar.. Nossa concepção, que é a Filosofia Concreta, que elabora essa operação num grau mais elevado, pretende instituir as bases de um método, não propriamente de síncrise mas de concrecionamento, que facilite não só a descoberta do que correlaciona, entrosa e conexiona mas, também, do que análoga e até univoca. Sempre, em nossos livros, usamos três fases em nosso método de expor. Iniciamos por uma síntese da matéria em exame, passamos para uma análise, para, afinal, penetrarmos na concreção. Demos, como exemplo, alguém que, de longe, vê uma cidade que ainda não conhece. No primeiro estágio, tem uma visão confusa da sua totalidade. Depois, ao percorrer suas ruas e bairros, tem dela uma visão analítica. Finalmente, ao retornar da cidade, ao conteemplá-la novamente do lugar de onde anteriormente a havia visto, tem então uma visão de conjunto, que inclui a análise já realizada: tem uma visão concreta.

O grande período de análise, que realizou a Filosofia nestes vinte e cinco séculos, trouxe uma contribuição poderosa e robusta. Quando notamos os erros abstractistas, o excesso de acentuação e de atualização de uma aspecto formal, que levou tantos homens a examinar detidamente o fragmento de realidade que foi considerado, notamos que houve um bem e houve um mal. Um bem, porque o excesso de atenção ao aspecto fragmentário permitiu subdividir e subdistinguir, ampliando o conhecimento de aspectos subordinados: um mal, ao atribuir a esse fragmento da realidade a única realidade, negando o valor aos outros fragmentos que outros destacaram.

Assim, grandes e benéficas foram as analises realizadas, que permitiram acentuar exageradamente certos aspectos, como Platão e Sócrates aos se interessarem pelas formas; Parmênides sobre a realidade absoluta do Ser; Aristóteles, demorando-se detidamente no exame das suas polaridades famosas: forma e matéria, acto e potência, essência e existência, substância e accidente; Protágoras, considerando o relativismo do conhecimento; os sofistas abrindo caminhos novos a dialéctica; os escolásticos, dedicando-se ao estabelecimento das mais mínimas distinções; Scot, demorando-se sobre o exame da distinção formal ex natura rei; Suarez, atendendo para as modais; Giordano Bruno, dedicando-se ao exame da potência infinita; Buda ao nirvana, ao nada do nada-relativo; Kant, demorando-se no exame da estructura do nosso conhecimento; Comte, preocupando-se com o positivo; os materialistas, dedicando-se ao exame da matéria, os psicologistas afanando-se no intuito desenfreado de obter uma explicação de tudo pela Psicologia, etc. E, assim, Freud quanto ao inconsciente, Jung, quanto as sedimentações mais longínquas da alma humana, e tantos outros, dedicados a aspectos particulares, especializando-se ao extremo, todos, enfim, realizaram esse grande trabalho analítico, necessário e imprescindível para o progresso do homem. Tudo isso foi grande e benéfico, pecando apenas ao desmerecer as possibilidades sobre as quais os outros se dedicavam, e cuja realidade afirmavam.

Resta-nos, agora, concrecionar e, sobretudo, sem perder-se de vista que ainda não se esgotaram as possibilidades de análise.

Também foi grandioso, no terreno das idéias sociais, o esforço dos socialistas. A análise em profundidade do capitalismo permitiu que muitos defeitos fossem sanados, a análise excessiva do factor econômico deu um valor ao mesmo, que em parte ele merecia, o exame do cesariocrata, do estatólatra e do Estado, cuja critica foi sem quartel, levada avante pelos anarquistas e libertários, permitiu que salientassem os males que daí adviriam a Humanidade, como advieram e ainda advirão. Todo esse trabalho foi benéfico e tudo isso realizou algo de grandioso. Não nos cabe mais filiarmo-nos a um ismo e, subordinarmo-nos a ele, mas realizar a concreção; ou seja, construir a visão concreta que reúna essas positividades, analogando-as com um nexo que justifique a sua realidade, não a sua exclusividade. Assim como compreendemos essa tarefa na Filosofia, e a realizamos em “Filosofia Concreta”, empreendemos, agora, no exame da Historia, esperando que outros, mais robustos que nós, possam ir alem do ponto que nos hoje iniciamos.

3 Comments:

Blogger Flávio said...

"Estamos agora, depois de uma atomização especializadora constante, marchando para um novo período: o concrecionador. Neste, o homem irá reunir, não, porém, confusamente, o que distinguiu, o que analisou." É interessante observar que esse raciocínio de Mário Ferreira antecipa as idéias de Edgar Morin, que também criticou a fragmentação do estudo universitário. O que mais me agrada na filosofia concreta é que ela recupera o ideal de unidade dos saberes e da filosofia. Em um mundo que acentua tanto as diferenças e o relativismo, acredito que é preciso voltarmos a perceber a unidade que está por trás dos fenômenos, o absoluto que sustenta o eterno rio das mudanças que é o mundo.

11:12 AM  
Blogger Carlos Eduardo de Carvalho Vargas said...

Prezado Vinícius,

Tenho pesquisado a obra do Mário e estou, com ajuda de vários amigos, planejando alguns empreendimentos concretos para o ano do centenário de nascimento dele. Gostaria de contar com a sua ajuda nesses trabalhos. Por favor, escreva logo um email para sammler@gmail.com
Muito obrigado.
Feliz Natal e um abraço do
Carlos Vargas.

4:28 PM  
Blogger Phillipe Jonson said...

Alguém poderia me dizer com que significa e influência e para qual resultado a filosofia concreta existe exatamente? Meu e-mail: phillipejonson@hotmail.com

1:09 PM  

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