17.8.06

ALGUMAS TESES DO LIVRO SOCIOLOGIA E ÉTICA FUNDAMENTAL

Tese 33

Por ser racional, o ser humano deseja uma felicidade perfeita.

Por ser racional o ser humano, e caber-lhe a capacidade de tímese parabólica, já por nos examinada em trabalhos anteriores, é ele capaz de comparar o que é, com o mais perfeito que poderia ser e, daí, aspirar à perfeição absoluta.

A perfeita felicidade implica a exclusão total de todos os males, a posse de todos os bens e a perpetuidade da posse, quer subjectivamente (certeza dessa posse), quer objectivamente, a posse perfeita de facto.

A perfecta felicitas entis referida pelos antigos, teria tais características. Tem, assim, o ser humano o desejo da mais perfeita felicidade, da plenitude da quitação do seu espírito, ávido sempre de mais, e de tudo.

Ora, o Ser que tem tudo quanto pode ter, que é plenitude absoluta de ser, é o Ser Supremo, como o demonstramos em “Filosofia Concreta”. A aspiração final e última do ser humano é o Ser Supremo e ser supremo.

Essa aspiração é manifestada em inúmeros actos humanos e no anelo constante da felicidade. O ser humano tem consciência, portanto, da perfectibilidade absoluta, e a deseja.

Não encontra ele a quietação do espírito na posse e uso dos bens materiais (bem estar), mas na posse da perfeição absoluta (felicidade).

Como criatura, tende também o homem para o Ser infinito. Como racional, tende para a felicidade absoluta desse Ser, sua suprema aspiração.

Se sabe que não lhe é alcançável como criatura, seu desejo é a fusão final no supremo poder do Ser Supremo, meta final e última de sua aspiração.

Tese 42

O intelecto humano é ilimitado

Inegavelmente, o intelecto supera os sentidos, pois alcança ao que escapa a estes. Intus legere ou inter legere, ler dentro das coisas ou ler entre as coisas, que são dados como as orígens do termo intelecto, nos revelam a função que cabe ao intelecto, que é mais elevada e mais complexa que as dos sentidos, que captam apenas o fantasma das coisas. O intelecto elabora os esquemas, coordena-os, constrói novos, estabelece relações, etc. Os animais brutos carecem de intelecto, carecem da capacidade de construir esquemas de esquemas, de estabelecer as comparações e os juízos que ao homem são possíveis. O objecto formal comum do intelecto é o ens, o ser, pois tudo quanto é objecto do conhecimento intelectual, de certo modo é. Mas o objecto formal próprio é a quididade da coisa, a razão da coisa que é adequada ao esquema eidético-noético.
A orígem das idéias humanas não provém apenas da experiência, como desejam mostrar os empiristas em geral. Já temos demonstrado em nossos livros que a tese inatista é também improcedente, mas esta, como a empirista, peca pelo excesso abstractivitista e pela não colocação devida e clara do que constituem propriamente as idéias, ou, melhor, os esquemas coordenadores, como o da simultaneidade e o da sucessão, que ordenam todos os factos sensíveis e que Kant, posteriormente, considerou como formas puras da sensibilidade (tempo e espaço). Nenhuma experiência sensível se realiza, sem a sua ordenação na simultaneidade e na sucessão, ora com o predomínio de uma, ou de outra. Note-se que, entre os nossos sentidos, há os mais temporais, como o ouvido, ou mais espaciais como o tacto.

A cognição intelectual versa mais predominantemene sobre os universais do que sobre os singulares. A cognição intelectual é predominantemente generalizadora, e tende a captar o esquema da coisa, construindo um esquema eidético-noéico e do facto, esquema que, posteriormente, serve para generalizar e classificar os factos posteriores, semelhantes àqueles (conceitos).

Essa capacidade de construcção eidética não a tem as coisas físicas e, para muitos, não a tem os animais, opiniaão com que não concordamos, embora não possamos aqui fazer prova em contrário. O que falta aos animais, indubitavelmente, é a consciência das estructuras, esquemáticas fundamentais que regulam o conhecimento dos factos, com os conceitos de simultaneidade, de sucessão , de ordem, de semelhança, de diferença, de privação, de posse, de iguldade, de bondade,etc, o que servem para coordenar os factos da cognição sensível. O homem alcança as estructuras ontológicas dos factos diversos e pode construir esquemas de esquemas, até uma constelação de esquemas, que são, por sua vez, estructurados num universo esquemático, ao qual as coisas são adequadas e, por meio do qual, constrói a sua visão geral do mundo (cosmovisão).

Graças à via symbólica, à ascese de penetração do simbolizado através do símbolo (o que já estudamos em tratado de simbólica), pode o homem alcançar as mais complexas estructuras ontológicas e até uma visão intencionalmente humana do ser enquanto tal, o que lhe permite, embora humanamente, estabelecer um conhecimento da Ontologia e da Teologia, sob bases profundas e sólidas.

Se os animais tem memória, tem o homem um poder de evocação, de rememorar as idéias, uma memória intelectiva, que não podem ter o animais. Nestes a memorização é espontânea. Mas, no homem, há, pela evocação, uma pesquisa uma análise, um penetrar por entre possíveis memorizações, um dirigir da memória que o animal não pode conhecer.

O juízo é um acto elícito do intelecto e não da vontade. É pela sua capacidade selectiva intelectual que o homem pode realizar o juízo, que é sempre dual, pois suas afirmações, sua formulação implica uma discrepância, uma preterição, algo que é negado, pois ao dizer-se que A é A, nega-se normalmente, o que o contradiz.

O apetite intelectual é propriamente a vontade. Há um apetite afectivo que se distingue daquele, pois este surge de uma raiz mais espontânea e da afectividade. A vontade humana tende para os bens particulares deduzidos da natureza intelectual do homem e dos sentidos.”