25.1.07

TRÊs TEXTOS SOBRE O CENTENÁRIO DE MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS

Abaixo, três textos comentam o centenário de Mário Ferreira dos Santos. O primeiro o faz em poucas linhas, porém suficientes para dar a dimensão da grandeza de Mário e é assinado pelo maior divulgador do filósofo na grande mídia, talvez o responsável pela ressurreição de sua obra que então só era conhecida em círculos bem limitados; o segundo foi publicado no Jornal de Ciências da SBPC, por um jovem, mas prolífico filósofo paranaense; o terceiro, é de um outro paranaense e prolífico, o Professor Dartangan Zanella, do blog "Falsum Commíttit, qui tacet" (http://zanela.tk/). Neste site há um interessante link sobre o centenário do maior filósofo brasileiro.

Grandes brasileiros

Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 14 de dezembro

Por estes dias, não sei bem a data, o embaixador José Osvaldo de Meira Penna completará noventa anos de idade. Noventa anos que valem por novecentos, tal a quantidade de experiência, conhecimento e sabedoria que esse homem extraordinário acumulou ao longo de uma vida repleta de estudos, viagens e encontros com personagens de primeira ordem. Já pedi e implorei que ele escrevesse suas memórias, mas não dá tempo: novas idéias e novos livros continuam brotando da cabeça dele num jato veloz e contínuo, sem lhe deixar uma brecha para registrar o passado. Num país onde as pessoas ficam gagás aos dezoito anos (não sem alguma ajuda universitária, é verdade), a pujança mental de um nonagenário, sua inteligência fulgurante e seu interesse apaixonado pela vida presente chegam a ter algo de obsceno. Já entrevejo o dia em que Meira Penna será proibido pela delegacia de costumes. Se isso ainda não aconteceu, pelo menos ele já sofreu toda sorte de boicotes, perfídias e difamações que a inépcia oficial reserva à genialidade despudorada. Há anos excluído da mídia chique – o que é antes um prejuízo para a população do que para uma alma alegre demais para ser vencida pelas frustrações --, ele só se comunica com os leitores através dos seus livros, do website http://www.meirapenna.org/ e de ocasionais aparições em congressos e conferências, onde ilumina os mais complicados problemas nacionais com uma lucidez de alguns milhões de watts e, com tiradas humorísticas surrealistas, faz a platéia passar mal de tanto rir. Felizmente seu humorismo não ficou só no improviso oral. Seus romances satíricos Urânia e Cândido Pafúncio estão entre as coisas mais engraçadas que já li nesta vida. É verdade que, diante de suas páginas, nem todos os leitores riem. Alguns choram – os personagens ridículos que ali se reconhecem. \n \nComo adoramos conversar, eu e esse meu amigo queridíssimo vivemos \ninventando divergências só para no fim chegarmos à conclusão de que estamos de \npleno acordo. Num único ponto somos inconciliáveis: ele é apaixonado por \nBrasília e eu estou seguro de que a única coisa bonita nessa cidade é o jardim \nda casa dele, um ambiente de sonho criado ao longo de trinta anos, com devoção e \narte, por ele e por sua esposa, a adorável D. Dorothy, uma americana da North \nCarolina que mantém viva no coração do Brasil a tradição da hospitalidade \nsulista.\n \nQualquer que seja o caso, sou fã de carteirinha desse escritor \noriginalíssimo e admirável, um dos melhores – e mais injustiçados – que já \nnasceram neste país onde se tolera tudo, exceto a inteligência, a verdade e a \nsinceridade. E só não vou elogiá-lo até à última linha deste artigo porque me \nocorre que o próximo dia 3 de janeiro será o centenário de nascimento de um \nbrasileiro ainda mais injustiçado: o filósofo Mário Ferreira dos Santos. Não \nhouve na nossa terra e aliás também em muitas outras um pensador mais sério, \nmais profundo, mais consistente, mais grandioso nas suas realizações \nintelectuais e mais desprezado pela mediocridade em torno. Patrimônio \nda humanidade, sua obra atravessará os séculos. Quando o Brasil cessar de \nexistir, será lembrado principalmente por este detalhe: aqui nasceu e viveu um \ndos mais autênticos gênios da filosofia universal. \n\n\n\n",0] ); //-->
Como adoramos conversar, eu e esse meu amigo queridíssimo vivemos inventando divergências só para no fim chegarmos à conclusão de que estamos de pleno acordo. Num único ponto somos inconciliáveis: ele é apaixonado por Brasília e eu estou seguro de que a única coisa bonita nessa cidade é o jardim da casa dele, um ambiente de sonho criado ao longo de trinta anos, com devoção e arte, por ele e por sua esposa, a adorável D. Dorothy, uma americana da North Carolina que mantém viva no coração do Brasil a tradição da hospitalidade sulista.
Qualquer que seja o caso, sou fã de carteirinha desse escritor originalíssimo e admirável, um dos melhores – e mais injustiçados – que já nasceram neste país onde se tolera tudo, exceto a inteligência, a verdade e a sinceridade. E só não vou elogiá-lo até à última linha deste artigo porque me ocorre que o próximo dia 3 de janeiro será o centenário de nascimento de um brasileiro ainda mais injustiçado: o filósofo Mário Ferreira dos Santos. Não houve na nossa terra e aliás também em muitas outras um pensador mais sério, mais profundo, mais consistente, mais grandioso nas suas realizações intelectuais e mais desprezado pela mediocridade em torno. Patrimônio da humanidade, sua obra atravessará os séculos. Quando o Brasil cessar de existir, será lembrado principalmente por este detalhe: aqui nasceu e viveu um dos mais autênticos gênios da filosofia universal.

O centenário de Mário Ferreira dos Santos Um convite à filosofia
Carlos Vargas


O conjunto da sua obra é um grande convite para conhecer mais sobre o pensamento brasileiroCarlos Vargas é mestrando em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, professor nas Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba, mediador do Programa de Enriquecimento Instrumental (CDCP/ ICELP) e membro da Sociedade de Pesquisas & Estudos Qualitativos (SE&PQ). Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:"Estamos agora, depois de uma atomização especializadora constante, marchando para um novo período: o concrecionador” (Mário Ferreira dos Santos).Neste dia 3 de janeiro de 2007, o Brasil celebra o centenário de nascimento de um dos seus maiores pensadores, o filósofo Mário Ferreira dos Santos. O valor da sua obra já foi avaliado pela Enciclopédia Filosófica do Centro di Studi Filosofici Gallarate, que lhe dedicou um verbete de página inteira (1).A sua maior obra, a “Enciclopédia de ciências filosóficas e sociais”, que inclui 48 volumes (2), realizou o plano de expressar a grandiosidade de um pensamento que buscou a estrutura permanente e universal pressuposta em qualquer filosofia possível (3).Nessa Enciclopédia, seus métodos filosóficos foram aplicados eficazmente em uma variedade de problemas que ainda interessam aos pesquisadores das mais diversas áreas, passando pela psicologia, sociologia, lógica, ética, retórica, ciências da natureza, estética, teoria do conhecimento, história, simbolismo, etc.Assim, buscou dialeticamente uma unidade metodológica capaz de abranger qualquer disciplina filosófica sem filiar-se a nenhum “ismo”, apesar de ter recebido as influências mais diversas, de Marx a Lao Tsé, de Pitágoras a Nietzsche, de São Tomás a Proudhon, de Jung a Husserl.Esta realidade ficou manifesto neste pensamento filosófico: “Não nos cabe mais filiarmo-nos a um ismo e, subordinarmo-nos a ele, mas realizar a concreção; ou seja, construir a visão concreta que reúna essas positividades, analogando-as com um nexo que justifique a sua realidade, não a sua exclusividade” (4).Seus mais de cem livros tiveram um total estimado de centenas de milhares de exemplares vendidos, sendo que alguns foram reeditados mais de dez vezes, e podem ser encontrados nas bibliotecas universitárias de todo o Brasil, mas também em Portugal e Espanha.O professor Stanilavs Ladusans coletou o depoimento dele no primeiro volume de “Rumos da filosofia atual no Brasil: em auto-retratos”. Sua obra aparece listada na “Bibliografia filosófica brasileira: período contemporâneo (1931-1977)” de Antonio Paim e foi comentada na Espanha (5) e reconhecida pelos estudiosos da filosofia pitagórica (6).Entre essas pesquisas, a que mais merece ser destacada, por ser mais completa e mais profunda, foi a descoberta, por Olavo de Carvalho, de sentidos lógicos, noéticos e ontológicos mais profundos no pensamento filosófico ferreiriano (7).Nas universidades brasileiras há um interesse crescente. Para 2007, estão sendo planejados alguns eventos e publicações em homenagem a este centenário, especialmente em setores da PUC-SP, Casper Líbero-SP, USC (Bauru), PUC-PR, Faculdades Interadas Santa Cruz de Curitiba, Unicampo-PR e UNILAGOS-PR (8).Algumas editoras (Edusc, Ibrasa, Cone Sul) republicaram algumas de suas obras, mas neste ano do centenário de nascimento, espera-se novas edições. Além da Martins Fontes e da Tríade, que estão analisando o relançamento de suas obras, a Paulus confirmou a reedição de “Lógica e Dialética”.E algum destaque também será dado ao livro inédito, “Encontro com a filosofia concreta”, sobre a relação entre filosofia e ciência, que será lançado pela Érealizações, acompanhado de uma pesquisa, feita pelo autor deste artigo, comparando a filosofia concreta de Ferreira dos Santos e a abordagem fenomenológica que Husserl tomou a partir dos problemas sobre lógica pura como doutrina da ciência levantados nos prolegômenos das “Investigações Lógicas” (9).Quem possui interesse pela cultura brasileira em um sentido amplo, prezando seus aspectos objetivos, permanentes e universais, sentirá a necessidade de assimilar também essas valiosas contribuições filosóficas.Nesse sentido, o conjunto da sua obra é um grande convite para conhecer mais sobre o pensamento brasileiro, especialmente para que se crie mais ainda, como ele mesmo recomendou, e para que o Brasil tenha uma cultura cada vez mais respeitada e valorizada, assumindo um papel relevante na história das nações: “Não somos um povo de incompetentes e incapazes... Também somos aptos a criar luminares. (...) Sem tomarmos consciência de nossas possibilidades, não poderemos fazer nada, e os que tomaram consciência de suas possibilidades, e empreenderam fazer alguma coisa, fizeram.” (10).Esta homenagem breve pretende ser um convite à filosofia (11), finalizando-se por meio das palavras animadoras do próprio Mário Ferreira: “Schiller disse que a beleza da viagem estava na viagem e não na chegada. Sejamos esses viajantes incansáveis, anelantes de certeza. Não façamos das nossas impossibilidades a nossa angústia. Saibamos viver a beleza dos caminhos que percorremos e não interrompamos a viagem porque não sabemos onde iremos chegar. Talvez nos espere nas dobras do caminho, o imprevisto...” (12).Notas:(1) BERALDO, Carlo. Santos, Mário Ferreira dos: verbete da “Enciclopédia Filosófica”- Centro di Studi Filosofici di Gallarate. Firenze, G.C. Sansoni Editorem 1969.(2) GALVÃO, Nadiejda et SANTOS, Yolanda. Monografia sobre Mário Ferreira dos Santos. São Paulo: s. ed., 2001. Por dentro das Relações Exteriores(3) Esta observação se fundamenta em CARVALHO, Olavo de. Guia breve para o estudo da obra filosófica de Mário Ferreira dos Santos. In: SANTOS, Mário F. A sabedoria das leis eternas. São paulo: É Realizações, 2001b. 142p. Neste texto se encontra a análise filosófica mais completa sobre o conjunto da obra de Mário Ferreira dos Santos. (4) SANTOS, Mário Ferreira. Análise de Temas Sociais: vol. 1. São Paulo: Logos, 1962. (5) SOUZA, C. A. M., Mário Ferreira dos Santos y su filosofia concreta. Madrid: Revista Verbo, série XXX. Núm. 29-296, mayo-junio-julio 1991. (6) FERNANDES, Paulo C. Homenagem ao filósofo Mário Ferreira dos Santos. Curitiba: A Lâmpada (órgão do Instituto Neo-Pitagórico), jan.-dez. 2004. (7) CARVALHO, Olavo de. O futuro do pensamento brasileiro: estudos sobre o nosso lugar no mundo. 2a ed. Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade, 1997. Pode-se estimar que a maioria dos atuais interessados na monumental obra ferreiriana descobriram-na pela divulgação do autor desse livro. (8) Há também algum material disponível pela internet nos seguintes sites: http://www.marioferreira.cjb.net/,http://www.marioferreira.com.br/,http://fisosofiaconcreta.blogspot.com/,http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Ferreira_dos_Santos e http://www.academus.pro.br/ . Além de artigos interessantes citando Ferreira dos Santos em vários sites da internet, especialmente http://zanela.tk/ e http://www.olavodecarvalho.org/.(9) O argumento fundamental de tal pesquisa foi extraído do próprio Mario Ferreira, que percebeu sua semelhança com Husserl,como ficou registrado em SANTOS, Mário Ferreira. Sobre psicologia. Transcrição de aula. São Paulo. 1967. (10) SANTOS, Mário Ferreira.Filosofia da história e da cultura: III volume. São Paulo: Logos, 1962. (11) SANTOS, Mário Ferreira.Convite à Filosofia. 6a ed. São Paulo: Logos, 1961. (12) SANTOS, Mário Ferreira. Sabedoria do ser e do nada: volume I. São Paulo: Matese, 1968.
Artigo 570 – UM GIGANTE E SEU CENTENÁRIO
redigido em 31 de dezembro de 2006.
por Dartagnan da Silva Zanela


Em muitos momentos, sinceramente, envergonho-me de ser brasileiro, por ser portador de uma identidade vinculada a uma coletividade tão inócua que se ufana de seus festejos mundanos e de sua arte de empinar bolas com os pés com se isso fosse sinônimo de superioridade intelectual e moral. Alias, atualmente, nestas terras pindorâmicas, se auto-proclamar ignorante, tornou-se sinônimo de altivez e serenidade, tal o estado degradante que nossa sociedade chegou.
Entretanto, a Graça Divina nos faz lembrar que o Brasil e os brasileiros não são apenas essa massa degradada, que estas terras tiveram a grata alegria de parir e cevar almas como a de Matias Aires, Joaquim Nabuco, Farias Brito, Rui Barbosa, Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima, Gilberto Freire, Raymundo Faoro, Miguel Reale e, incluímos aqui, os nomes de alguns ainda vivos que estão a abrilhantar a nossa identidade nacional como José Osvaldo de Meira Penna, Olavo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, Artur Gianetti da Fonseca, em muitos outros.
Mas, neste dia 03 de janeiro de 2007, sentimo-nos obrigados a render nossas homenagens ao filósofo Mário Ferreira dos Santos que, se vivo fosse, estaria completando cem anos de idade. Quando afirmamos filósofo, não estamos aqui homenageando um senhor que detinha um diploma de graduação em filosofia, mas sim, um homem que dedicou toda a sua vida a investigação de questões deste caráter. Estamos nos referindo a um homem que foi autor de aproximadamente setenta obras que foram publicadas de maneira independente através de sua editora, a Logos, e que nos legou aproximadamente trinta outras manuscritas. Detalhe: algumas destas obras foram publicadas com o uso de um mimeógrafo devido a falta de recursos para uma edição mais apropriada, porém, a falta de recursos nunca foi um motivo para aborrecer e desanimar o seu amor constante pela Verdade e pela Sabedoria.
Ferreira dos Santos, nos idos da década de 50 e 60 além de ministrar fabulosas aulas em auditórios e salas reservadas, também o fazia através do correio, através de cursos por correspondência. Além das obras de sua pena, ele também traduziu, comentou e publicou inúmeras obras clássicas para língua pátria e, destacamos aqui, a tradução singular da obra “ASSIM FALOU ZARATUSTRA” de Friedrich Nietzsche, que era acompanhada de fartas notas de roda-pé que apresentavam uma análise simbólica da obra do poeta-filósofo alemão.
Poucas de suas obras são nos dias atuais republicadas e poucos são os que se dedicam a meditação de seus ensinamentos e, destes poucos, a maioria se encontra apartada a seara acadêmica que muito mais se preocupa com seus soldos do que com o que era objeto central da vida de Mário Ferreira dos Santos, que seria o estudo e o amor ao saber.
Tal era a sua dedicação que, a mestra da vida, a História, nos conta que este homem em seus afazeres diários (que além de tudo era empresário e advogava), sempre carregava no bolso de sua camisa uma pequena caderneta para anotar todas as idéias e impressões que lhe ocorressem no dia para, mais tarde, quando estivesse no aconchego de seu lar, pudesse ele refletir sobre elas e assim ordená-las de um modo singular.
Infelizmente, no centenário desta figura que elevou os estudos filosóficos em nossa nação, creio que pouco se dedicará ao estudo e reflexão de suas áureas laudas. Com certeza, muitos destes pusilânimes que se auto-proclamam intelectuais irão afirmar que se a sua obra está em ostracismo é porque ela nunca teve valor. Bem, de certo modo, sim, visto que o seu trabalho hercúleo frente ao que vemos hoje seria realmente pouco significante, do mesmo modo que é o primor do trabalho chama pouca a atenção um vagabundo desavergonhado.
Cremos que seria uma legítima prática sanitária para o espírito hodierno de nossa sociedade a leitura de obras como A invasão vertical dos Bárbaros, Filosofia Concreta (em 3 tomos), Tratado de Simbólica, Filosofia da Crise, Filosofia Concreta dos Valores, Filosofia e História da Cultura (em 3 tomos), Lógica e Dialética, O homem perante o infinito e Noologia Geral.
Podemos afirmar, sem medo de errar, que este senhor foi o grande educador filosófico de nossa Pátria e, como toda grande alma, foi pouco ouvido. Que não houve e que, demorará muito, infelizmente, para que haja outro homem que dedicasse a sua vida de tal forma ao magistério e a disseminação da cultura filosófica em nosso país, pois ele, Mário Ferreira dos Santos, fez tudo isso e muito mais, sem nunca pedir um tostão sequer aos cofres públicos. Bem ao contrário dos intelectuais da atualidade que nada seriam e nada fariam sem as gentilezas concedidas pelo Estadossauro.
Por isso, neste ano, vamos render a este filósofo a merecida homenagem que um homem com uma alma desta envergadura merece. Vamos estudar as suas obras, vamos refletir sobre suas idéias, ponderar sobre as suas análises e assim, somente assim, gritemos com a alma repleta de felicidade: Viva Mário Ferreira dos Santos! Ele está morto, mas sua obra e suas idéias vivem!

MAIS SOBRE A ÉTICA IMANENTE

Ética

Do livro “Filosofia e História da Cultura.”

Uma das disciplinas, que maior atenção merecem dos estudiosos, é a Ética. Os homens mantêm relações entre si. E as disciplinas, que estudam essas relações, as normas que as orientam, os usos e costumes dos diversos povos (ethos, em grego e mor, moris, em latim) são a Ética e a Moral. Muitas vezes confundidas, uma com a outra, merecem, no entanto, que as distingamos. A Moral tem um campo mais amplo, pois estuda, descriptivamente, os diversos costumes estabelecidos entre os povos, através das eras, suas variações, transformações, modificações. Tomando como objecto esses costumes, que são mores, é construída a Ética, como disciplina específica, a qual procura o nexo que os liga, os princípios que os regem, os meios que utiliza e os fins a que se destinam. Assim a Ética é a ciência da Moral. Hegel distingue a moralidade subjetiva (Moralitat) e a moral objectiva (Sttlichkeit). Referia-se a primeira ao cumprimento do dever pela vontade, e a segunda, à fixação das normas, leis e costumes, ao espírito objectivo na forma da moralidade. A Ética é a ciência que engloba, como objecto, esses costumes, e os correlaciona com o corpo da Filosofia Geral.

Em face das variações que se observam nos costumes, que são diferentes segundo os diferentes agrupamentos, no tempo e no espaço, e segundo até a estructura social, é óbvio que surgisse, para os estudiosos de tema tão vasto, uma primeira pergunta: há, na moral, regras invariantes, constantes, ou apenas variáveis? Essa pergunta, se respondida positivamente, provocaria logo outra: se há regras invariantes, quem as estabeleceu, e como? Se não há, são apenas produto de convenções humanas? E logo surgem outras perguntas, tais como: quem estabelece essas normas? São impostas ou livremente aceitas? Por que a Moral? Qual a sua finalidade? Que orientação, que dirige o homem na aceitação de normas que regularizam as relações humanas?

Tais perguntas já nos mostram, suficientemente, quão grande é o campo de actividade dos estudos éticos. E cercando essas perguntas, poderia ainda surgir essa nova pergunta: que valor tem para nosso estudo o conhecimento da Ética?

Iniciando a respondê-las, começaríamos pelo fim. Não há agrupamento humano que não tenha normas que regularizem suas relações. Portanto, é natural desde logo, que se queremos estudar a cultura em suas diversas manifestações, não podemos afastar-nos dos temas éticos, presentes em todas as ocasiões da História. Ora, se observarmos bem o homem, após os estudos já feitos, sabemos que ele se distingue dos animais, por ter espírito, e impregnar com o seu espírito os bens que ele cria, capta ou domina. Os animais não têm moral. São amorais, porque não tomam uma atitude contra a moral, nem a favor dela. Os animais vivem, movimentam-se, convivem entre si, seguindo seus instintos, conservando suas relações. Salvo casos excepcionais de degeneração, cumprem fielmente as condições da espécie a que pertencem. Só o homem pode ser moral ou anti-moral. E isso por que? Porque o homem escolhe, pensa, julga, compara, medita, induz, deduz, frustra.

O homem tem normas que variam através dos tempos, normas que regulam suas relações. Os que actualizam apenas essa variabilidade das normas concluem que a moral é relativa, porque a daqui não é a dali. Portanto, a moral não pode constituir-se numa ciência, mas apenas permanecer no terreno do descriptivo. Mas outros não pensam assim, o já veremos por que. Em face dessa situação, podemos desde logo estabelecer que a Ética pode ser vislumbrada de duas formas


Invariante – aceita normas constantes, independentes das condições históricas, geográficas, étnicas, etc.
Ética:


Variante – aceita que os costumes variam, segundo variem as condições gerais.


Colocando o problema da Ética neste pé, logo se torna fácil ver que as perguntas surgem exigentes. Se há um invariante, e o homem o percebeu, o notou, o visualizou, deve ter sido ele estabelecido por alguém. Tomam, aqui, alguns éticos a posição transcendentalista, os quais afirmam que uma divindade, um deus, estabeleceu as normas sob cuja obediência deveriam viver os homens, sob pena de ofenderem essa mesma divindade, portanto, pecarem. Temos aqui a posição religiosa, que aceita ter dado Deus ao homem suas leis morais, concrecionadas nos dez mandamentos, que são a síntese dos princípios éticos. Desta forma, a ética não é estabelecida pelo homem, mas por Deus. Quando a moral é estabelecida por outrem, diz-se que ela é heterônoma (de heteros, outro, em grego, e nomos, norma, lei, regra).

Assim a norma moral tem sua origem em outro que a impõe. Quanto a moral é estabelecida pelos próprios agentes que a praticam, temos a moral autônoma (de autos, si mesmo). Dessa forma, a moral seria heterônoma. Mas poderia, em casos especiais, isto é, na formação de comunidades específicas, ser estabelecida autonomamente, mas sempre obedecendo às normas dadas heteronomamente.

Mas outros pensam de modo diferente. Nenhuma divindade estabeleceu normas para as relações humanas. Estas nascem de convenções, de hábitos, transformados em leis morais, depois de devidamente estabelecidos, fundados e consagrados pela prática. Negam esses a origem transcendental da moral. Ela é de origem humana, cheia dos defeitos e das fraquezas naturais do homem.

Desta forma, aquele imperativo categórico de validez universal, que buscam todos os que defendem uma posição invariante na Ética, ou em outras palavras, os que buscam um princípio universalmente válido invariante, aceito por todos os povos, em todas as eras e condições, não se dá para os que aceitam invariantes na moral sejam todos transcendentalistas. Há uma outra posição, que é a dos imanentistas. Os imanentistas afirmam que as normas morais, às quais o homens obedecem em suas relações, têm sua origem fundamental na própria estructura social criada. (grifos do transcritor).

Já vimos que cada agrupamento social forma uma estructura e essa estructura é mais sólida, ou não. Forma uma tensão, que é mais coerente ou não. Essa tensão exige dos elementos que a compõem, para formar sua coerência, um respeito a certas normas ou até certas atitudes, sob pena de ser rompida. Digamos que um grupo de caçadores reúne-se para caçar. É natural, é intrínseco ao bom êxito da caçada, que cada um trabalhe em benefício do fim almejado. Se um caçador espantar a caça prejudicaria aos outros e até a si mesmo. Logo se vê que, numa caçada em conjunto é imanente a ela a necessidade da obediência a certas regras, sob pena de não alcançar o fim desejado.

Cada estructura, que se forma, tem a sua moral, tem a sua norma ética, e estas serão tantas quantas as variadas composições estructurais. Vê-se, facilmente, que em todas as eras, independentemente das classes e das condições sociais, os homens obedecem a um número determinado de princípios, que se repetem invariavelmente em todos os povos. Vejamos alguns: nenhuma mãe, salvo os casos teratológicos, deixa de dar assistência ao filho; e é moral fazê-lo. Em todas as colectividades, todo acto, que ponha em risco a mesma, é punido, porque é considerado imoral.

Essas normas são invariantes. E poderíamos dizer: toda tensão formada, à proporção que for mais forte em sua estructura, considerará como intensivamente imoral todo acto que perturbe a sua conservação. Os elementos, que formam uma fraca estructura, uma tensão frágil, como a de um grupo, que se reúne em torno de um “camelot”, que apregoa as vantagens das bugingangas que oferece, tensão passageira, transeunte, rápida e não perdurável, considerará imoral o acto daquele que perturbe essa tensão e não permita que se ouçam as palavras do “camelot”. Mas como é uma tensão fraca, essa indignação ao perturbador também será fraca. Mas se for uma tensão já formada numa sala de projeção de um cinema, quem a perturbe será repelido com maior indignação. E se estivermos numa igreja, durante uma missa, em que se congregam pessoas que devem, pelo menos, crer na sua religião e no seu culto, a indignação crescerá contra quem perturbar a tensão formada.

É fácil daí, por graus, chegar até à indignação que provocaria quem matasse um membro de uma colectividade, e esta necessita manter suas forças para defender-se dos adversários, pois verifica-se que a tensão aumenta na proporção também da tensão contrária que a ameaça.

Assim se vê que os defensores de uma ética imanente têm suas bases bem sólidas. Quem sobretudo estudou essa ética imanente, e a defendeu foi Proudhon, seguido, posteriormente, por Nietzsche, em certos aspectos, e por Kropotkine. É a ética imanente o fundamento das doutrinas libertárias, que aceitam a possibilidade de uma ordem natural entre os homens, fundada nas tensões que formam, e que procuram conservar-se, porque, na realidade, toda a ética está fundada nelas e nos interesses por elas criados.

Portanto, se a sociedade for organizada sob bases simples e naturais, formará, naturalmente, sua ética, não como uma necessidade apenas, mas porque o homem sabe descobrir o que lhe convém para ordenar as suas relações, porque sabe escolher. Por isso os homens, quando se reúnem para um fim comum, logo sabem deduzir de sua organização as regras e princípios justos (ajustados), que permitem conquistar, da melhor forma, o fim a que visam, como se vê na formação das sociedades de qualquer espécie, através dos princípios fundamentais de suas normas estatutárias.

Nas épocas de religiosidade, a ética é quase sempre de fundo religioso; portanto, transcendente. Nesse caso, os princípios éticos são julgados como impostos pela divindade para que os homens se dirijam e todo atentado aos mesmos é uma afronta à própria divindade.

Essas normas não são facultativas, isto é, podem ser indiferentemente cumpridas ou não. Ao contrário, são imperativos categóricos e não podem ser desobedecidos.

Modernamente, os que empreendem tais análises dividem a Ética, em Ética dos bens e Ética dos valores.

A Ética dos bens compreende todas as doutrinas que, fundadas no hedonismo (de hedonê, em grego, prazer) ou na consecução da felicidade (eudemonistas), dão aos seus actos um fim.

Os que defendem a Ética dos valores declaram que os actos são éticos porque se fundam em valores éticos.

A acção não é boa ou má, em si. Ela apenas existe, se dá.

Uma mosca que deposita seus ovos no nosso alimento, não pratica uma acto em si bom ou mau, moral ou imoral. Não há ética propriamente em nenhuma acção humana. A ética esta nos valores que emprestamos ou damos a essa acção.

É a ética matéria importante, porque o modo de visualizá-la, de considerá-la, de apreciá-la varia no decorrer dos tempos, bem como os costumes, que se estabelecem nas diversas relações humanas.

Não poderíamos estudar a cultura, senão tivéssemos presentes todos esses temas tão importantes.

(Aula taquigrafada, proferida em 21/09/50).

23.1.07

TEXTO SOBRE O CENTENÁRIO DE MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS

Um Gigante e o seu centenário

Por Dartangnan Zannela do blog "Falsum commitit, qui verum tacet": http://zanela.blogspot.com/

Em muitos momentos, sinceramente, envergonho-me de ser brasileiro, por ser portador de uma identidade vinculada a uma coletividade tão inócua que se ufana de seus festejos mundanos e de sua arte de empinar bolas com os pés com se isso fosse sinônimo de superioridade intelectual e moral. Alias, atualmente, nestas terras pindorâmicas, se auto-proclamar ignorante, tornou-se sinônimo de altivez e serenidade, tal o estado degradante que nossa sociedade chegou.
Entretanto, a Graça Divina nos faz lembrar que o Brasil e os brasileiros não são apenas essa massa degradada, que estas terras tiveram a grata alegria de parir e cevar almas como a de Matias Aires, Joaquim Nabuco, Farias Brito, Rui Barbosa, Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima, Gilberto Freire, Raymundo Faoro, Miguel Reale e, incluímos aqui, os nomes de alguns ainda vivos que estão a abrilhantar a nossa identidade nacional como José Osvaldo de Meira Penna, Olavo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, Artur Gianetti da Fonseca, em muitos outros.
Mas, neste dia 03 de janeiro de 2007, sentimo-nos obrigados a render nossas homenagens ao filósofo Mário Ferreira dos Santos que, se vivo fosse, estaria completando cem anos de idade. Quando afirmamos filósofo, não estamos aqui homenageando um senhor que detinha um diploma de graduação em filosofia, mas sim, um homem que dedicou toda a sua vida a investigação de questões deste caráter. Estamos nos referindo a um homem que foi autor de aproximadamente setenta obras que foram publicadas de maneira independente através de sua editora, a Logos, e que nos legou aproximadamente trinta outras manuscritas. Detalhe: algumas destas obras foram publicadas com o uso de um mimeógrafo devido a falta de recursos para uma edição mais apropriada, porém, a falta de recursos nunca foi um motivo para aborrecer e desanimar o seu amor constante pela Verdade e pela Sabedoria.
Ferreira dos Santos, nos idos da década de 50 e 60 além de ministrar fabulosas aulas em auditórios e salas reservadas, também o fazia através do correio, através de cursos por correspondência. Além das obras de sua pena, ele também traduziu, comentou e publicou inúmeras obras clássicas para língua pátria e, destacamos aqui, a tradução singular da obra “ASSIM FALOU ZARATUSTRA” de Friedrich Nietzsche, que era acompanhada de fartas notas de roda-pé que apresentavam uma análise simbólica da obra do poeta-filósofo alemão.
Poucas de suas obras são nos dias atuais republicadas e poucos são os que se dedicam a meditação de seus ensinamentos e, destes poucos, a maioria se encontra apartada a seara acadêmica que muito mais se preocupa com seus soldos do que com o que era objeto central da vida de Mário Ferreira dos Santos, que seria o estudo e o amor ao saber.
Tal era a sua dedicação que, a mestra da vida, a História, nos conta que este homem em seus afazeres diários (que além de tudo era empresário e advogava), sempre carregava no bolso de sua camisa uma pequena caderneta para anotar todas as idéias e impressões que lhe ocorressem no dia para, mais tarde, quando estivesse no aconchego de seu lar, pudesse ele refletir sobre elas e assim ordená-las de um modo singular.
Infelizmente, no centenário desta figura que elevou os estudos filosóficos em nossa nação, creio que pouco se dedicará ao estudo e reflexão de suas áureas laudas. Com certeza, muitos destes pusilânimes que se auto-proclamam intelectuais irão afirmar que se a sua obra está em ostracismo é porque ela nunca teve valor. Bem, de certo modo, sim, visto que o seu trabalho hercúleo frente ao que vemos hoje seria realmente pouco significante, do mesmo modo que é o primor do trabalho chama pouca a atenção um vagabundo desavergonhado.
Cremos que seria uma legítima prática sanitária para o espírito hodierno de nossa sociedade a leitura de obras como A invasão vertical dos Bárbaros, Filosofia Concreta (em 3 tomos), Tratado de Simbólica, Filosofia da Crise, Filosofia Concreta dos Valores, Filosofia e História da Cultura (em 3 tomos), Lógica e Dialética, O homem perante o infinito e Noologia Geral.
Podemos afirmar, sem medo de errar, que este senhor foi o grande educador filosófico de nossa Pátria e, como toda grande alma, foi pouco ouvido. Que não houve e que, demorará muito, infelizmente, para que haja outro homem que dedicasse a sua vida de tal forma ao magistério e a disseminação da cultura filosófica em nosso país, pois ele, Mário Ferreira dos Santos, fez tudo isso e muito mais, sem nunca pedir um tostão sequer aos cofres públicos. Bem ao contrário dos intelectuais da atualidade que nada seriam e nada fariam sem as gentilezas concedidas pelo Estadossauro.
Por isso, neste ano, vamos render a este filósofo a merecida homenagem que um homem com uma alma desta envergadura merece. Vamos estudar as suas obras, vamos refletir sobre suas idéias, ponderar sobre as suas análises e assim, somente assim, gritemos com a alma repleta de felicidade: Viva Mário Ferreira dos Santos! Ele está morto, mas sua obra e suas idéias vivem!
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Obs.: Os interessados encontrarão algum material em meu web site e, para maiores informações poderão entrar em contato conosco através do e-mail: opontoarquimedico@yahoo.com.br

MAIS SOBRE A ÉTICA IMANENTE. FUNDAMENTO DE UMA ÉTICA INVARIANTE

Ética

Do livro “Filosofia e História da Cultura.”

Uma das disciplinas, que maior atenção merecem dos estudiosos, é a Ética. Os homens mantêm relações entre si. E as disciplinas, que estudam essas relações, as normas que as orientam, os usos e costumes dos diversos povos (ethos, em grego e mor, moris, em latim) são a Ética e a Moral. Muitas vezes confundidas, uma com a outra, merecem, no entanto, que as distingamos. A Moral tem um campo mais amplo, pois estuda, descriptivamente, os diversos costumes estabelecidos entre os povos, através das eras, suas variações, transformações, modificações. Tomando como objecto esses costumes, que são mores, é construída a Ética, como disciplina específica, a qual procura o nexo que os liga, os princípios que os regem, os meios que utiliza e os fins a que se destinam. Assim a Ética é a ciência da Moral. Hegel distingue a moralidade subjetiva (Moralitat) e a moral objectiva (Sttlichkeit). Referia-se a primeira ao cumprimento do dever pela vontade, e a segunda, à fixação das normas, leis e costumes, ao espírito objectivo na forma da moralidade. A Ética é a ciência que engloba, como objecto, esses costumes, e os correlaciona com o corpo da Filosofia Geral.

Em face das variações que se observam nos costumes, que são diferentes segundo os diferentes agrupamentos, no tempo e no espaço, e segundo até a estructura social, é óbvio que surgisse, para os estudiosos de tema tão vasto, uma primeira pergunta: há, na moral, regras invariantes, constantes, ou apenas variáveis? Essa pergunta, se respondida positivamente, provocaria logo outra: se há regras invariantes, quem as estabeleceu, e como? Se não há, são apenas produto de convenções humanas? E logo surgem outras perguntas, tais como: quem estabelece essas normas? São impostas ou livremente aceitas? Por que a Moral? Qual a sua finalidade? Que orientação, que dirige o homem na aceitação de normas que regularizam as relações humanas?

Tais perguntas já nos mostram, suficientemente, quão grande é o campo de actividade dos estudos éticos. E cercando essas perguntas, poderia ainda surgir essa nova pergunta: que valor tem para nosso estudo o conhecimento da Ética?

Iniciando a respondê-las, começaríamos pelo fim. Não há agrupamento humano que não tenha normas que regularizem suas relações. Portanto, é natural desde logo, que se queremos estudar a cultura em suas diversas manifestações, não podemos afastar-nos dos temas éticos, presentes em todas as ocasiões da História. Ora, se observarmos bem o homem, após os estudos já feitos, sabemos que ele se distingue dos animais, por ter espírito, e impregnar com o seu espírito os bens que ele cria, capta ou domina. Os animais não têm moral. São amorais, porque não tomam uma atitude contra a moral, nem a favor dela. Os animais vivem, movimentam-se, convivem entre si, seguindo seus instintos, conservando suas relações. Salvo casos excepcionais de degeneração, cumprem fielmente as condições da espécie a que pertencem. Só o homem pode ser moral ou anti-moral. E isso por que? Porque o homem escolhe, pensa, julga, compara, medita, induz, deduz, frustra.

O homem tem normas que variam através dos tempos, normas que regulam suas relações. Os que actualizam apenas essa variabilidade das normas concluem que a moral é relativa, porque a daqui não é a dali. Portanto, a moral não pode constituir-se numa ciência, mas apenas permanecer no terreno do descriptivo. Mas outros não pensam assim, o já veremos por que. Em face dessa situação, podemos desde logo estabelecer que a Ética pode ser vislumbrada de duas formas


Invariante – aceita normas constantes, independentes das condições históricas, geográficas, étnicas, etc.
Ética:


Variante – aceita que os costumes variam, segundo variem as condições gerais.


Colocando o problema da Ética neste pé, logo se torna fácil ver que as perguntas surgem exigentes. Se há um invariante, e o homem o percebeu, o notou, o visualizou, deve ter sido ele estabelecido por alguém. Tomam, aqui, alguns éticos a posição transcendentalista, os quais afirmam que uma divindade, um deus, estabeleceu as normas sob cuja obediência deveriam viver os homens, sob pena de ofenderem essa mesma divindade, portanto, pecarem. Temos aqui a posição religiosa, que aceita ter dado Deus ao homem suas leis morais, concrecionadas nos dez mandamentos, que são a síntese dos princípios éticos. Desta forma, a ética não é estabelecida pelo homem, mas por Deus. Quando a moral é estabelecida por outrem, diz-se que ela é heterônoma (de heteros, outro, em grego, e nomos, norma, lei, regra).

Assim a norma moral tem sua origem em outro que a impõe. Quanto a moral é estabelecida pelos próprios agentes que a praticam, temos a moral autônoma (de autos, si mesmo). Dessa forma, a moral seria heterônoma. Mas poderia, em casos especiais, isto é, na formação de comunidades específicas, ser estabelecida autonomamente, mas sempre obedecendo às normas dadas heteronomamente.

Mas outros pensam de modo diferente. Nenhuma divindade estabeleceu normas para as relações humanas. Estas nascem de convenções, de hábitos, transformados em leis morais, depois de devidamente estabelecidos, fundados e consagrados pela prática. Negam esses a origem transcendental da moral. Ela é de origem humana, cheia dos defeitos e das fraquezas naturais do homem.

Desta forma, aquele imperativo categórico de validez universal, que buscam todos os que defendem uma posição invariante na Ética, ou em outras palavras, os que buscam um princípio universalmente válido invariante, aceito por todos os povos, em todas as eras e condições, não se dá para os que aceitam invariantes na moral sejam todos transcendentalistas. Há uma outra posição, que é a dos imanentistas. Os imanentistas afirmam que as normas morais, às quais o homens obedecem em suas relações, têm sua origem fundamental na própria estructura social criada. (grifos do transcritor).

Já vimos que cada agrupamento social forma uma estructura e essa estructura é mais sólida, ou não. Forma uma tensão, que é mais coerente ou não. Essa tensão exige dos elementos que a compõem, para formar sua coerência, um respeito a certas normas ou até certas atitudes, sob pena de ser rompida. Digamos que um grupo de caçadores reúne-se para caçar. É natural, é intrínseco ao bom êxito da caçada, que cada um trabalhe em benefício do fim almejado. Se um caçador espantar a caça prejudicaria aos outros e até a si mesmo. Logo se vê que, numa caçada em conjunto é imanente a ela a necessidade da obediência a certas regras, sob pena de não alcançar o fim desejado.

Cada estructura, que se forma, tem a sua moral, tem a sua norma ética, e estas serão tantas quantas as variadas composições estructurais. Vê-se, facilmente, que em todas as eras, independentemente das classes e das condições sociais, os homens obedecem a um número determinado de princípios, que se repetem invariavelmente em todos os povos. Vejamos alguns: nenhuma mãe, salvo os casos teratológicos, deixa de dar assistência ao filho; e é moral fazê-lo. Em todas as colectividades, todo acto, que ponha em risco a mesma, é punido, porque é considerado imoral.

Essas normas são invariantes. E poderíamos dizer: toda tensão formada, à proporção que for mais forte em sua estructura, considerará como intensivamente imoral todo acto que perturbe a sua conservação. Os elementos, que formam uma fraca estructura, uma tensão frágil, como a de um grupo, que se reúne em torno de um “camelot”, que apregoa as vantagens das bugingangas que oferece, tensão passageira, transeunte, rápida e não perdurável, considerará imoral o acto daquele que perturbe essa tensão e não permita que se ouçam as palavras do “camelot”. Mas como é uma tensão fraca, essa indignação ao perturbador também será fraca. Mas se for uma tensão já formada numa sala de projeção de um cinema, quem a perturbe será repelido com maior indignação. E se estivermos numa igreja, durante uma missa, em que se congregam pessoas que devem, pelo menos, crer na sua religião e no seu culto, a indignação crescerá contra quem perturbar a tensão formada.

É fácil daí, por graus, chegar até à indignação que provocaria quem matasse um membro de uma colectividade, e esta necessita manter suas forças para defender-se dos adversários, pois verifica-se que a tensão aumenta na proporção também da tensão contrária que a ameaça.

Assim se vê que os defensores de uma ética imanente têm suas bases bem sólidas. Quem sobretudo estudou essa ética imanente, e a defendeu foi Proudhon, seguido, posteriormente, por Nietzsche, em certos aspectos, e por Kropotkine. É a ética imanente o fundamento das doutrinas libertárias, que aceitam a possibilidade de uma ordem natural entre os homens, fundada nas tensões que formam, e que procuram conservar-se, porque, na realidade, toda a ética está fundada nelas e nos interesses por elas criados.

Portanto, se a sociedade for organizada sob bases simples e naturais, formará, naturalmente, sua ética, não como uma necessidade apenas, mas porque o homem sabe descobrir o que lhe convém para ordenar as suas relações, porque sabe escolher. Por isso os homens, quando se reúnem para um fim comum, logo sabem deduzir de sua organização as regras e princípios justos (ajustados), que permitem conquistar, da melhor forma, o fim a que visam, como se vê na formação das sociedades de qualquer espécie, através dos princípios fundamentais de suas normas estatutárias.

Nas épocas de religiosidade, a ética é quase sempre de fundo religioso; portanto, transcendente. Nesse caso, os princípios éticos são julgados como impostos pela divindade para que os homens se dirijam e todo atentado aos mesmos é uma afronta à própria divindade.

Essas normas não são facultativas, isto é, podem ser indiferentemente cumpridas ou não. Ao contrário, são imperativos categóricos e não podem ser desobedecidos.

Modernamente, os que empreendem tais análises dividem a Ética, em Ética dos bens e Ética dos valores.

A Ética dos bens compreende todas as doutrinas que, fundadas no hedonismo (de hedonê, em grego, prazer) ou na consecução da felicidade (eudemonistas), dão aos seus actos um fim.

Os que defendem a Ética dos valores declaram que os actos são éticos porque se fundam em valores éticos.

A acção não é boa ou má, em si. Ela apenas existe, se dá.

Uma mosca que deposita seus ovos no nosso alimento, não pratica uma acto em si bom ou mau, moral ou imoral. Não há ética propriamente em nenhuma acção humana. A ética esta nos valores que emprestamos ou damos a essa acção.

É a ética matéria importante, porque o modo de visualizá-la, de considerá-la, de apreciá-la varia no decorrer dos tempos, bem como os costumes, que se estabelecem nas diversas relações humanas.

Não poderíamos estudar a cultura, senão tivéssemos presentes todos esses temas tão importantes.

(Aula taquigrafada, proferida em 21/09/50).