23.1.07

TEXTO SOBRE O CENTENÁRIO DE MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS

Um Gigante e o seu centenário

Por Dartangnan Zannela do blog "Falsum commitit, qui verum tacet": http://zanela.blogspot.com/

Em muitos momentos, sinceramente, envergonho-me de ser brasileiro, por ser portador de uma identidade vinculada a uma coletividade tão inócua que se ufana de seus festejos mundanos e de sua arte de empinar bolas com os pés com se isso fosse sinônimo de superioridade intelectual e moral. Alias, atualmente, nestas terras pindorâmicas, se auto-proclamar ignorante, tornou-se sinônimo de altivez e serenidade, tal o estado degradante que nossa sociedade chegou.
Entretanto, a Graça Divina nos faz lembrar que o Brasil e os brasileiros não são apenas essa massa degradada, que estas terras tiveram a grata alegria de parir e cevar almas como a de Matias Aires, Joaquim Nabuco, Farias Brito, Rui Barbosa, Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima, Gilberto Freire, Raymundo Faoro, Miguel Reale e, incluímos aqui, os nomes de alguns ainda vivos que estão a abrilhantar a nossa identidade nacional como José Osvaldo de Meira Penna, Olavo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, Artur Gianetti da Fonseca, em muitos outros.
Mas, neste dia 03 de janeiro de 2007, sentimo-nos obrigados a render nossas homenagens ao filósofo Mário Ferreira dos Santos que, se vivo fosse, estaria completando cem anos de idade. Quando afirmamos filósofo, não estamos aqui homenageando um senhor que detinha um diploma de graduação em filosofia, mas sim, um homem que dedicou toda a sua vida a investigação de questões deste caráter. Estamos nos referindo a um homem que foi autor de aproximadamente setenta obras que foram publicadas de maneira independente através de sua editora, a Logos, e que nos legou aproximadamente trinta outras manuscritas. Detalhe: algumas destas obras foram publicadas com o uso de um mimeógrafo devido a falta de recursos para uma edição mais apropriada, porém, a falta de recursos nunca foi um motivo para aborrecer e desanimar o seu amor constante pela Verdade e pela Sabedoria.
Ferreira dos Santos, nos idos da década de 50 e 60 além de ministrar fabulosas aulas em auditórios e salas reservadas, também o fazia através do correio, através de cursos por correspondência. Além das obras de sua pena, ele também traduziu, comentou e publicou inúmeras obras clássicas para língua pátria e, destacamos aqui, a tradução singular da obra “ASSIM FALOU ZARATUSTRA” de Friedrich Nietzsche, que era acompanhada de fartas notas de roda-pé que apresentavam uma análise simbólica da obra do poeta-filósofo alemão.
Poucas de suas obras são nos dias atuais republicadas e poucos são os que se dedicam a meditação de seus ensinamentos e, destes poucos, a maioria se encontra apartada a seara acadêmica que muito mais se preocupa com seus soldos do que com o que era objeto central da vida de Mário Ferreira dos Santos, que seria o estudo e o amor ao saber.
Tal era a sua dedicação que, a mestra da vida, a História, nos conta que este homem em seus afazeres diários (que além de tudo era empresário e advogava), sempre carregava no bolso de sua camisa uma pequena caderneta para anotar todas as idéias e impressões que lhe ocorressem no dia para, mais tarde, quando estivesse no aconchego de seu lar, pudesse ele refletir sobre elas e assim ordená-las de um modo singular.
Infelizmente, no centenário desta figura que elevou os estudos filosóficos em nossa nação, creio que pouco se dedicará ao estudo e reflexão de suas áureas laudas. Com certeza, muitos destes pusilânimes que se auto-proclamam intelectuais irão afirmar que se a sua obra está em ostracismo é porque ela nunca teve valor. Bem, de certo modo, sim, visto que o seu trabalho hercúleo frente ao que vemos hoje seria realmente pouco significante, do mesmo modo que é o primor do trabalho chama pouca a atenção um vagabundo desavergonhado.
Cremos que seria uma legítima prática sanitária para o espírito hodierno de nossa sociedade a leitura de obras como A invasão vertical dos Bárbaros, Filosofia Concreta (em 3 tomos), Tratado de Simbólica, Filosofia da Crise, Filosofia Concreta dos Valores, Filosofia e História da Cultura (em 3 tomos), Lógica e Dialética, O homem perante o infinito e Noologia Geral.
Podemos afirmar, sem medo de errar, que este senhor foi o grande educador filosófico de nossa Pátria e, como toda grande alma, foi pouco ouvido. Que não houve e que, demorará muito, infelizmente, para que haja outro homem que dedicasse a sua vida de tal forma ao magistério e a disseminação da cultura filosófica em nosso país, pois ele, Mário Ferreira dos Santos, fez tudo isso e muito mais, sem nunca pedir um tostão sequer aos cofres públicos. Bem ao contrário dos intelectuais da atualidade que nada seriam e nada fariam sem as gentilezas concedidas pelo Estadossauro.
Por isso, neste ano, vamos render a este filósofo a merecida homenagem que um homem com uma alma desta envergadura merece. Vamos estudar as suas obras, vamos refletir sobre suas idéias, ponderar sobre as suas análises e assim, somente assim, gritemos com a alma repleta de felicidade: Viva Mário Ferreira dos Santos! Ele está morto, mas sua obra e suas idéias vivem!
Site: http://zanela.tk
Obs.: Os interessados encontrarão algum material em meu web site e, para maiores informações poderão entrar em contato conosco através do e-mail: opontoarquimedico@yahoo.com.br